CONTO I - A menina dos sonhos I


Ele era de estatura mediana, tinha os cabelos encaracolados de cor escura, olhos castanhos, também escuros, e o narizinho da mamãe, como costumava dizer. Seu nome? Não importa. Sua idade? 17. Era início do ano e ele havia acabado de passar por uma decepção amorosa. Mais uma, por sinal. E, por isso, andava muito triste: pouco comia, raramente saía, quase nunca sorria.

Certo dia, ao cair da noite, ele foi dormir. Como de costume, orou: agradeceu pelo ar que respirava, por nenhum mal lhe ter acontecido; e pediu. Pediu para sair daquela condição de tristeza. Ele sempre fazia isso. Era sempre a mesma oração. Mas nessa noite... ah! Nessa noite aconteceu algo diferente. Algo que há muito não acontecia.

Fechou os olhos para dormir. Mas ainda cordado, começou a pensar nos momentos que já havia vivido, nas coisas que já havia dito, refez muitas cenas que já haviam passado. E sentiu sua consciência se apagar lentamente. Até não ter mais consciência de nada. Sabe? Como quando você está dormindo. Você nunca sabe que está dormindo. Só se lembra de ter acordado. É engraçado. É estranho. Bom, ele estava nessa condição. E foi nessa condição que seu subconsciente começou a lhe aprontar uma peça. Se é que foi realmente seu subconsciente...

Ele sonhou. E foi o sonho mais estranho de sua vida; ou, pelo menos, o mais intrigante: ele estava se arrumando para ir ao show de despedida do grupo Simply Red. Logo o Simply Red? Ele sequer sabia alguma música deles. Deve ter sonhado com eles por ter visto, na televisão, um comercial de lançamento de algum de seus álbuns. Mas ele não estava só. Todos os seus amigos estavam com ele, se bem que ele não se lembrava de conhecê-los. Mas no sonho eram amigos. Sabe como é: coisas de sonho. Mas não eram apenas os amigos que estavam com ele. O mais surpreendente é que ela também estava lá. Ele havia sonhado com ela.

Smile era o seu nome. Nome estranho, não? Entretanto, sugestivo. Seu sorriso era perfeito: o contorno dos lábios, o formato dos dentes, o queixo. Tudo era perfeito. Seu rosto, seus olhos, seus cabelos... tudo. Ela era a mulher de sua vida. Pelo menos no sonho era com ela que ele havia se casado, compartilhado seus segredos, planos, beijos, carinho, afeto. Até estava esperando um filho seu. E o jeito dela? Era fascinante. Ela dominava a atenção de todos com sua voz doce e angelical, e sua postura de quem tem autoridade, embora fosse mansa. Ele acreditava piamente em tudo que estava vivendo, presenciando, tocando. Era tudo muito lindo, muito perfeito. Realmente, estava tudo perfeito. Perfeito de mais.

O despertador toca: é hora de acordar. Uma pena.  Ele se levantou, calçou os chinelos, foi ao banheiro escovar os dentes, sentou-se à mesa para tomar seu café-da-manhã. Tudo como sempre fazia. Bom, como sempre, não. Havia um sorriso em seu rosto que teimava em não sair de lá. Um frescor novo em seus olhos. Talvez não houvesse superado sua decepção com o amor, mas as coisas não estavam como antes.
O sonho se fora, mas o rosto e os gestos de sua misteriosa e inesquecível Smile ficaram em seus pensamentos para sempre. Ela nunca mais voltou para visitá-lo em seus sonhos. Mas não precisava: ele já a havia decorado. Dos pés à cabeça, ele já a havia decorado.
L. A.
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