- Peçanha, ontem à noite, quando estávamos conversando sobre o que achávamos uns dos outros, notei que o senhor hesitou em falar o que pensava a meu respeito. Sutilmente percebi isso. Daí eu dei um jeito de mudar o alvo da conversa... – comentou Luís Antônio, em tom de reticências, olhando ao derredor.
Eles caminhavam na areia da praia, com todos os outros. Mas todos estavam distraídos demais com suas conversas paralelas: uns estavam trocando chutes na bola, outros corriam mais a frente, outros ficavam mais atrás. E nós conversávamos, andando, sem nos olhar diretamente, apenas ao redor ou para o chão, em tons de veludo e sinceridade.
Quando Luís Antônio fez seu comentário, Peçanha riu-se, olhando à esquerda, à procura do mar, distraidamente. Ele sabia que o comentário de seu aluno, não fora feito em vão: ele procurava saber o que se passava na cabeça de Peçanha a seu respeito.
Peçanha sabia exatamente quem era Luís Antônio. Ele era um professor do tipo que observava tudo e a todos – nada lhe passava despercebido. Talvez Luís Antônio já soubesse disso, mas só teve a real certeza no decorrer daquela conversa.
Luís Antônio se explicou, dizendo que ele havia falado sobre todos que surgiram no assunto, mas, em um olhar, deu-lhe a entender que não queria falar a seu respeito, e que havia ficado muito curioso para saber o que pensava. E, como, apesar de todos estarem ali, se ocupavam demais com suas distrações, fazia-se o momento perfeito para saber o que Peçanha teria para lhe dizer.
- Ai, ai, Luís... sabe, é muito ruim a pessoa viver para os outros. Você está bem, quando os outros estão bem. Se todos estiverem bem confortáveis, bem servidos, não precisando de nada, pronto, você está bem. Você precisa fazer de tudo para que todos estejam bem. E, é claro, ninguém precisa ficar sabendo disso. Você não busca reconhecimento, apenas o bem de todos. Mas nem é assim que as coisas são, sabe?. Nem sempre você está realmente bem, mas você não se importa. O que te importa é o bem estar dos outros. Mas, às vezes, precisamos pensar em nosso próprio bem estar, senão, as pequenas coisas que nos afetam vão se acumulando, se acumulando, se acumulando...
A cada palavra que era dita, Luís Antônio ria-se, surpreso. Não esperava que seu professor o conhecesse tão bem. Continuou Peçanha:
- Você pode até estar rodeado de pessoas, de amigos, mas quando está triste, você se mostra extremamente solitário. Não consegue esconder a tristeza que sente, de forma que sua solidão torna-se visível. Mas, mesmo assim, você quer fazer-se de forte para transmitir força para os outros, porque – na sua cabeça – se os outros te virem fraco, ficaram fracos também, e você não se agrada em ver os outros mal. É do tipo que sempre ajuda, sempre quer resolver os problemas dos outros, mas seus problemas nunca têm muita importância. É do tipo que agüenta qualquer um, com uma paciência oriental, e nunca perde o controle, pois você, na sua concepção, não pode agredir ninguém. Mas nem é assim que as coisas são, sabe? Às vezes, dizer umas verdades é muito importante, por mais que doa. E não se sinta agressor por isso. – houve uma pequena pausa. Luís Antônio não ousou dizer nada. Eles continuavam caminhando, e Peçanha retomou. – Perceba que o que eu estou dizendo são coisas que só afetam a você. Isso tudo são coisas que fazem mal apenas a você. Você sofre bastante por isso, mas parece não se importar. Mas nem é assim que são as coisas...
Peçanha se mostrava o maior observador que já passou pelo caminho de Luís. Ele se tornara especial para seu aluno, pois ele também era do tipo que gostava de observar e tirar conclusões a respeito dos outros, embora guardasse suas opiniões para si.
Luís portava-se com muita calma, entusiasmo e rindo-se de tudo quanto ouvia. No fundo, ele sabia que aquilo tudo era verdade.
Peçanha sabia exatamente o que falava. Para ele, tudo era previamente calculado, e isso deixava seu aluno intrigado. Ele sempre fazia algo já esperando uma determinada reação, e, assim, já tinha a sua réplica preparada na ponta da língua. Como ele era capaz de adivinhar o que a pessoa iria responder? E foi em mais um de seus cálculos que ele concluiu sua fala:
- Mas olhe, eu estou aqui dizendo, mas eu sei que posso não estar falando puramente a verdade, de modo que, se você discordar de algo, pode dizer, viu?
Ao que Luís Antônio respondeu, caindo na armadilha:
- Claro, claro. Eu respeito muito a opinião dos outros. Mas eu estou aqui apenas ouvindo... mesmo que o senhor esteja errado em algum aspecto, eu não vou dizer.
- É, eu sei. Esse é o seu problema.
E Luís percebeu a trama tecida por Peçanha, e ambos riram-se muito.
L.A.



1 comentários:
valha que legal, e fica mais legal ainda quando se sabe quem são os personagens... :X
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